|
«A Ordem dos Frades Menores (OFM), fundada por São Francisco de
Assis, é uma fraternidade em que os Irmãos, seguindo mais de perto
a Jesus Cristo sob a acção do Espírito Santo, se consagram totalmente
a Deus como a seu amor supremo pela profissão, vivendo o Evangelho
na Igreja segundo a forma observada e proposta por São Francisco»
(CCGG 1)
Fazendo parte das chamadas ordens mendicantes, os Franciscanos
procuram levar uma vida radicalmente evangélica em «espírito de
oração e devoção». Por outro lado é sua tarefa primordial dar testemunho
de conversão e minoridade pregando, por palavras e por obras, a
reconciliação, a paz e a justiça.
Os Frades Menores, também chamados de Franciscanos, são uma fraternidade
de irmãos clérigos e leigos, isto é, de irmãos sacerdotes e não
sacerdotes, com iguais direitos e obrigações, vivendo no dia-a-dia
os votos de pobreza, castidade e obediência. Organizam-se em Províncias
autónomas, espalhadas por todo o mundo, sob os auspícios de um Governo
Geral, sedeado em Roma, que anima os irmãos na fé.
Levando à sua plenitude a consagração baptismal e em resposta ao
chamamento divino, os Franciscanos entregam-se totalmente a Deus
como a seu amor supremo pela profissão de obediência, pobreza e
castidade, que hão-de viver segundo o espírito de São Francisco
de Assis.
Pelo voto de obediência, os Franciscanos, no seguimento de Jesus
Cristo «que pôs a sua vontade na vontade do Pai», colocam a sua
vontade nas mãos dos seus superiores, procurando atingir a maturidade
e a liberdade dos filhos de Deus.
Pelo voto de pobreza, os Frades Menores, seguindo a Jesus Cristo
que «por nós se fez pobre neste mundo», renunciam ao direito de
propriedade e confiam-se à providência do Pai Celeste.
Pelo voto de castidade, os irmãos levam uma vida célibe «por causa
do Reino dos Céus», a fim de pensarem nas coisas do Senhor de coração
indiviso e de, numa vida evangélica e fraterna, amarem «o Senhor
Deus com todo o empenho, com todo o afecto, com todo o sentimento,
com todo o desejo e afecto.
Por outro lado, os Franciscanos não têm uma tarefa determinada
na Igreja, se entendermos por isso sectores precisos e exclusivos
de acção pastoral. Eles não foram constituídos para uma Obra específica,
nem para fazer uma acção pastoral determinada. Segundo as necessidades
das diferentes épocas eles fundam e cuidam de lugares de peregrinação,
assistem hospitais, assumem paróquias, constroem e leccionam em
escolas, animam campos de jovens, editam livros, revistas e jornais,
cuidam dos mais pobres e marginalizados.
Em Portugal a Província da Ordem dos Frades Menores, após a sua
restauração, em 18 de Outubro de 1891, adoptou por patronos os Santos
Mártires de Marrocos, passando a designar-se Província dos Santos
Mártires de Marrocos de Portugal. Com a concordata entre os Estado
Português e a Santa Sé, em 1941, a Província de Portugal, graças
aos seu intenso labor missionário, é reconhecida pelo Estado como
Corporação Missionária e adopta a designação legal de Província
Portuguesa da Ordem Franciscana, que ainda mantém.
A propósito dos Santos Mártires de Marrocos, apresentamos um pequeno
texto do historiador franciscano Frei Henrique Pinto Rema que nos
resenha a vida destes primeiros mártires da Ordem Franciscana e
a sua íntima ligação a Portugal:
«Os santos Berardo, Pedro, Otão, Acúrsio e Adjuto, são os primeiros
mártires franciscanos e, segundo as palavras do próprio São Francisco, os primeiros “cinco verdadeiros irmãos menores”. Na verdade, o seu
corajoso testemunho da fé, regado com o sangue do martírio, está
na base da vocação do primeiro franciscano português, Santo António
de Lisboa, e constitui o gérmen do franciscanismo em território
luso.
No Capítulo Geral do Pentecostes de 1219 decidiu-se que os discípulos
de Francisco de Assis partissem em missão para os então chamados
“infiéis”. O próprio Poverello parte com os Cruzados e encontrou-se
com o Sultão de Damieta. Entusiasmado com o sonho de levar o Evangelho
sem a espada também aos filhos de Maomé, envia a Marrocos seis frades:
Frei Vital, Frei Berardo, Frei Pedro, Frei Otão, todos sacerdotes,
Frei Acúrcio e Frei Adjuto, ambos irmãos leigos.
Rumaram a Espanha, e quando já se encontravam no reino de Aragão,
Frei Vital, o prelado, caiu doente, tendo cedido o lugar a Frei
Berardo, treinado na língua árabe. Os cinco prosseguiram viagem
até Coimbra, então a capital do Reino de Portugal.
Em Coimbra ter-se-ão acolhido no eremitério de Santo Antão dos
Olivais. Correu célere a notícia da sua chegada, e dela ouviu dizer
a rainha D. Urraca, que os chamou à Corte para os ouvir falar. Deles
terá porventura também ouvido falar Frei Fernando Martins (o futuro
Santo António de Lisboa), recolhido no Mosteiro de Santa Cruz.
A Rainha pretendeu saber da boca deles o seu próprio futuro. Começaram
por se escusar, mas, perante a sua insistência, rezaram a Deus,
que lhe terá revelado a sua morte antes da do marido, e o sinal
era o martírio deles em Marrocos.
Os cinco frades saíram de Coimbra com a recomendação de passarem
por Alenquer, onde vivia D. Sancha, irmã do rei D. Afonso II. Ali,
a Princesa trocou-lhes o hábito religioso por veste comum, e assim
disfarçados rumaram a Sevilha, terra de mouros, onde se esconderam
durante oito dias em casa dum cristão. Impelidos por santo zelo
missionário, um dia saíram de casa e tentaram entrar na mesquita,
dizendo-se embaixadores do rei dos reis, o Senhor Jesus Cristo.
Levados perante a autoridade, esta pensou primeiro matá-los, mas
acabou por apenas os prender e depois enviar para Marrocos, como
aliás eles desejavam.
Em Marrocos havia uma colónia portuguesa, à frente da qual estava
o Infante D. Pedro, a quem os frades terão apresentado as cartas
de recomendação de D. Urraca e D. Sancha. O irmão do rei português
recebeu-os o melhor possível e proveu-os do necessário.
Uma vez em Marrocos, tomaram a sério a missão a que se destinavam.
A sua voz começou a ressoar intemeratamente por toda a parte com
a Palavra do Senhor Jesus Cristo. O Miramolim não apreciou a loucura
destes Religiosos e deu ordens para os expulsar da cidade.
O infante D. Pedro, em face da delicada situação destes fervorosos
arautos do Evangelho, entendeu por bem dar-lhes protecção na viagem
até Ceuta, donde passariam a terras cristãs. Os santos frades não
aceitaram a oferta, e regressaram à cidade e à pregação aos mouros
que estavam no mercado.
O Miramolim, ao saber do facto, mandou-os encerrar no cárcere,
onde os mantém por vinte dias sem comer nem beber e, depois, entregou-os
aos cristãos, com o fim de os remeterem para a Europa. Mas Frei
Berardo e Companheiros acharam que a sua missão não estava cumprida
e regressaram à cidade. Então o Infante D. Pedro reteve-os em sua
casa e pôs-lhes guardas, a fim de não poderem sair para entre os
mouros.
Apesar de tudo, contam-se-lhes algumas saídas da casa do Infante.
Um dia, numa saída para recontro entre facções rivais, faltou a
água, e a intercessão de Frei Berardo encontrou uma fonte, da qual
beberam os homens e os animais de carga e se encheram os odres.
Em nova saída, os servos de Deus apresentaram-se diante do Miramolim,
a quem destemidamente Frei Berardo pregou a doutrina de Jesus Cristo.
O chefe muçulmano mandou-os atormentar, atando-lhes as mãos e os
pés, arrastando-os por terra, açoitando-os violentamente, lançando
sobre as chagas azeite e vinagre e deitando-os em cima de vidros
partidos. Assim passaram a noite inteira.
No dia seguinte, o rei quis vê-los e interrogá-los. Achou-os firmes
na fé cristã. Uma última tentativa para os demover consistiu em
levar-lhes mulheres, que lhas dariam em casamento, e em oferecer-lhes
muitas coisas e honras, se se convertessem à fé muçulmana.
Naturalmente a resposta foi negativa e a sentença de morte executada
imediatamente. O Miramolim pega do cutelo ou cimitarra e a cada
um dos cinco abre a cabeça. Era o dia 16 de Janeiro de 1220.
Os restos mortais destes cinco “verdadeiros Frades Menores”, assim
se referiu a eles S. Francisco de Assis, foram recolhidos religiosamente
pelo Príncipe D. Pedro e entregues ao seu capelão, o Cónego Regrante
de Santa Cruz de Coimbra, D. João Roberto, que tratou de os colocar
na igreja de Santa Cruz.
A notável epopeia missionária franciscana entre infiéis vai prosseguir
com Santo António de Lisboa, que da morte dos Santos Mártires de
Marrocos tira pretexto para mudar de ordem religiosa. Troca o famoso
e rico mosteiro de Santa Cruz pelo eremitério pobre de Santo Antão
dos Olivais e o nome de Fernando Martins pelo de Frei António, com
a condição expressa de seguir para a Missão de Marrocos, o que realmente
aconteceu, embora por pouco tempo.
Os Proto-Mártires da Ordem Franciscana, canonizados em 1481, têm
um culto especial na Ordem Franciscana. Em todas as dioceses de
Portugal, o papa Bento XIV (1740- 1758) autorizou a celebração da
festa litúrgica no dia 16 de Janeiro. A restaurada Província Portuguesa
da Ordem Franciscana tomou-os oportunamente como seus padroeiros
e também os festeja a 16 de Janeiro.»
|
|