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«A vida consagrada, profundamente arreigada nos exemplos
e ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à sua Igreja,
por meio do Espírito. Através da profissão dos conselhos evangélicos,
os traços característicos de Jesus — virgem, pobre e obediente
— adquirem uma típica e permanente «visibilidade» no meio do
mundo, e o olhar dos fiéis é atraído para aquele mistério do
Reino de Deus que já actua na história, mas aguarda a sua plena
realização nos céus.
Ao longo dos séculos, nunca faltaram homens e mulheres
que, dóceis ao chamamento do Pai e à moção do Espírito, escolheram
este caminho de especial seguimento de Cristo, para se dedicarem
a Ele de coração «indiviso» (cf. 1 Cor 7,34). Também eles deixaram
tudo, como os Apóstolos, para estar com Cristo e colocar-se, como
Ele, ao serviço de Deus e dos irmãos. Contribuíram assim para manifestar
o mistério e a missão da Igreja, graças aos múltiplos carismas de
vida espiritual e apostólica que o Espírito Santo lhes distribuía,
e deste modo concorreram também para renovar a sociedade.» (Vida
Consagrada, Exortação Apostólica de João Paulo II)
De entre os muitos que «escolheram este caminho de
especial seguimento de Cristo», encontram-se os franciscanos, cujo
fundador, S. Francisco de Assis, dócil «ao chamamento do Pai e à
moção do Espírito», nos deixou um testemunho fecundo de comunhão
eclesial, fundada numa experiência profundamente cristológica. Com
efeito, «Jesus Cristo, encarnado e morto por amor do homem, está
no centro da espiritualidade de Francisco. Os mistérios da Encarnação
e da Redenção são tudo para ele que procura aderir ao Mestre com
tal imitação textual que é contrastado nisto também pelos seus.
Deixando de lado toda a linguagem simbólica, característica da cultura
medieval, o seu relacionamento com Cristo é directo, prescindindo
de muitas mediações doutrinais. Deus para ele é verdadeiramente
“Aquele que é”; e Jesus, Filho Unigénito do Pai e Filho de Maria,
é o mestre e o companheiro na aventura humana, que da sua Redenção
tira certeza e alegria. Francisco está em contínuo diálogo com Jesus
Cristo; faz que Ele intervenha nos debates sobre a Regra, pede-Lhe
conselho, conforto, auxílio. Pode-se dizer que ele vive na Sua contínua
presença. É preciso reconhecer neste estilo franciscano uma fonte
de perene autenticidade evangélica, uma escola sempre voltada para
a origem, para a essência, para a verdade da vida cristã.
Retornam aqui à mente as palavras sóbrias, mas incisivas
de Tomás de Celano, referentes ao Santo: «a sua mais elevada aspiração,
o seu dominante desejo, a sua mais firme vontade era observar perfeitamente
e sempre o santo Evangelho e imitar fielmente com toda a vigilância,
com todo o empenho, com todo o entusiasmo da alma e do coração a
doutrina e os exemplos do Senhor nosso Jesus Cristo» ( vita prima
83). Isto valeu a Francisco o título de «Novo evangelista»; ele
colocou de facto o Evangelho como fundamento da sua legislação e
da sua vida espiritual, e resolveu à sua luz todos os problemas
que se lhe apresentaram ao longo do caminho.” (João Paulo II, Discurso
de encerramento do centenário…, 2 de Janeiro de 1983)
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