No contexto da 37.ª Peregrinação da Família Franciscana Portuguesa ao Santuário de Fátima, presidiu à Eucaristia, no dia 03 de Outubro, o Bispo de Bragança-Miranda, Dom Frei António Montes Moreira, cuja homilia apresentamos:
1. Foi há oitocentos anos. Na Primavera de 1209 Francisco de Assis dirigiu-se a Roma com os seus primeiros onze companheiros e recebeu aí do Papa Inocêncio III a aprovação da sua forma de vida (1C 33,6). Ele próprio, no Testamento, recorda com emoção esse momento fundacional: «o mesmo Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu assim o fiz escrever em poucas e simples palavras e o senhor Papa mo confirmou» (T 14-15).
Ao longo de oito séculos o carisma de Francisco de Assis, através da inumerável plêiade dos seus filhos e filhas espirituais, imprimiu a sua marca de presença fraterna e testemunho evangélico na vida da Igreja e da humanidade. Sem Francisco, a Igreja e o Mundo seriam mais pobres.
Como Família Franciscana Portuguesa, reunida na sua 37.ª Peregrinação anual a Fátima, viemos celebrar o jubileu oito vezes secular das nossas origens. Com dois sentimentos dominantes: o primeiro, de acção de graças e louvor a Deus pelo dom que foi São Francisco para a Igreja e para o Mundo; depois, tendo recebido o testemunho franciscano dos irmãos e irmãs que nos precederam, o propósito de o transmitir com fidelidade criativa às gerações do futuro. Celebrar é mais do que mera evocação académica; é compromisso de vida.
2. A primeira leitura da Eucaristia ajudou-nos a bendizer a Deus por nos ter dado São Francisco.
Esta passagem, tirada do livro sapiencial de Ben Sirá (Sir 50, 1. 3-7), refere-se ao sumo sacerdote hebraico Simão II que exerceu o ministério por volta de 220 a 195 a.C. Ben Sirá louva Simão não só pelo desempenho cuidadoso das suas funções sacerdotais mas também pelas obras empreendidas para defesa de Jerusalém nessa época de ameaças político-militares dos Selêucidas de Antioquia. Restaurou as muralhas da cidade, fortificou o templo, escavou um reservatório de água… Daí, as comparações altamente elogiosas para Simão. Ele é como a estrela da manhã a brilhar no meio das nuvens, como a lua nos dias de lua cheia, como sol radioso sobre o templo do Altíssimo (Sir 50, 6-7).
Para um espírito franciscano, as iniciativas do sumo sacerdote Simão para defesa e valorização do seu povo evocam dois episódios significativos da vida do Santo de Assis, relatados pelo seu primeiro biógrafo, Tomás de Celano: o encargo recebido do Crucifixo de S. Damião (2 C 10, 4: «Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está quase em ruína») e o sonho do Papa Inocêncio III vendo a Basílica de Latrão prestes a desabar e um religioso, franzino e de aspecto mesquinho, a escorá-la com os ombros, evitando-lhe a queda» (2 C 17,5; cf. TC 51).
De facto, como também refere Tomás de Celano, na alocução que proferiu na canonização de S. Francisco, a 16 de Julho de 1228, o Papa Gregório IX começou por aplicar ao Santo as comparações de Ben Sirá: «Como a estrela da manhã cintilando por entre as nuvens, como a lua resplandecente em seu plenilúnio e como o sol refulgindo, assim brilhou este homem no templo de Deus» (1 C 125,8).
Também nós hoje exaltamos o Poverello recorrendo ao texto de Ben Sirá. E acrescentamos um verso ao Cântico das Criaturas do Santo de Assis: «Louvado sejas, Senhor, pelo irmão Francisco!»
3. São Francisco não era uma estrela brilhando com luz própria. A sua originalidade foi ter sido fiel seguidor de Cristo, como vem expresso na segunda leitura, o conhecido texto conclusivo da carta de S. Paulo aos Gálatas (6, 14-18).
Como o Apóstolo das Gentes, também o Santo de Assis pode dizer que se gloria somente na Cruz de Cristo, que o que conta é ser criatura nova e que traz no seu corpo as marcas (estigmas, em grego) de Jesus.
Comentando esta passagem paulina na sua visita a Assis a 17 de Junho de 2007, o Papa Bento XVI disse: “falando do seu estar crucificado com Cristo, S. Paulo não só menciona o seu novo nascimento no baptismo, mas toda a sua vida ao serviço de Cristo. (…) É a primeira vez, na história do Cristianismo, que aparece a palavra «estigmas de Jesus». (…) As marcas recebidas numa longa história de paixão são testemunho da presença da cruz de Jesus no corpo de São Paulo, são os seus estigmas. E assim pode dizer que não é a circuncisão que o salva: os estigmas são a consequência do seu baptismo, a expressão do seu morrer com Jesus dia após dia, o sinal seguro do seu ser nova criatura (cf. Gl 6, 15). Paulo [continua o Papa] menciona, de resto, com a aplicação da palavra «estigmas», o costume antigo de imprimir na carne do escravo a marca do seu proprietário. O servo era assim “estigmatizado” como propriedade do seu dono e estava sob a sua protecção. O sinal da cruz, inscrito em longas paixões na carne de Paulo, é o seu orgulho: legitima-o como verdadeiro servo de Jesus, protegido pelo amor do Senhor”. (L’Osservatore Romano, edição portuguesa, 2007, nº 25, 23 de Junho, p.7).
Tomás de Celano já tinha antecipado igual apontamento acerca da “estigmatização interior” de Francisco, iniciada com o apelo do Crucifixo de S. Damião para que empreendesse a reforma da Igreja. Este biógrafo explica: «Como a partir daí se enraizou tão entranhadamente em sua alma a compaixão pelo Crucificado, é-nos lícito supor que, antes mesmo de receber os estigmas em sua carne, já desde esse momento os tenha trazido profundamente impressos no coração» (2 C 10,8).
4. São Francisco projectou-se para além das fronteiras visíveis da Igreja Católica. É admirado e até venerado em distintos quadrantes espirituais e culturais pelo seu amor à natureza e como precursor da ecologia e paladino da paz; enfim, como expoente da fraternidade humana e irmão universal.
A abertura universal de Francisco, tanto em relação à humanidade como aos elementos da natureza, não radica, porém, num vago humanitarismo social ou na convicção de que partilhamos uma aventura cósmica comum. Também não aparece colada ou justaposta à sua visão religiosa do mundo e da vida. É fruto directo desta, da sua consciência de que Deus é Pai e por isso todos nós somos irmãos. A fraternidade humana encontra o seu fundamento último e mais responsabilizante na nossa condição comum de filhos de Deus.
Por isso, Francisco também pode dizer como Jesus no Evangelho de hoje: “Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25).
5. Convocados por Maria a este santuário, saudamos a Senhora com palavras do Pai São Francisco:
«Salve, Senhora Santa Rainha,
Maria, virgem convertida em templo;
Salve, palácio de Deus;
Salve, tabernáculo de Deus;
Salve, casa de Deus;
Salve, vestidura de Deus,
Salve, Mãe de Deus!»
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Franciscanos querem viver «essencial» da vida cristã
Nos 800 anos da aprovação da «forma de vida», frades propõem fraternidade e solidariedade para o mundo actual. Entre o perigo do relativismo e uma prática cristã “de moda”, o Franciscanismo propõe um retorno ao essencial da vida cristã, assente na fraternidade autêntica e solidariedade, sem “proselitismo”.
Oito séculos depois da aprovação da “forma de vida” de São Francisco de Assis, o “desgaste é natural”. O reconhecimento é feito pelo Frei Daniel Teixeira, Director do Centro de Franciscanismo, em Coimbra, que explica à Agência ECCLESIA que “todo o cristão, seja franciscano ou não, está sempre em processo de conversão, em busca da fidelidade e de um testemunho coerente”.
Em 1209 o Papa Inocêncio III reconhecia a “forma de vida”, conforme chamava São Francisco ao viver de acordo com o Evangelho assente em valores de fraternidade e solidariedade. No Séc. XXI, os frades menores querem “procurar os valores iniciais” que, sofrendo com as mudanças actuais, “são de uma extraordinária actualidade, dentro ou fora da Igreja”, indica o Frei Teixeira.
A fraternidade universal, a descoberta de todos como irmãos “independentemente do seu credo”, a preocupação com o ecumenismo, a “aproximação a todos os homens sem a preocupação da conversão, mas assente num testemunho de proximidade” são, segundo o Frei Daniel Teixeira um modo de vida necessário na actualidade.
“As mudanças dos tempos modernos, a organização social e política e a própria estrutura mental do homem obriga-nos a uma constante busca da fidelidade e obriga-nos a assistir o homem de hoje com meios diferentes mas sabendo incarnar o espírito inicial, que deu sentido à vida de São Francisco”.
Constantemente desafiados por valores modernos “tantas vezes contrários ao que o Evangelho propõe e também ao espírito inicial da família franciscana”, o frade franciscano indica a necessidade “de nos purificarmos para sermos testemunhas do desapego, sabemos partilhar os bens convidando também os homens à partilha”.
Sentindo ser “contra-corrente” de uma sociedade “massificada e auto-suficiente”, o Frei Daniel considera que “viver o Evangelho é uma ousadia nos dias de hoje”.
Apesar de criticar os que “são cristãos por moda”, o Frade reconhece que actualmente a maioria dos cristãos são mais convictos do que eram antigamente, quando se assistia a uma prática cristã “mais por tradição do que por convicção”. Mas esta convicção “consegue dar resposta às dúvidas do homem actual”, indica o Frei Daniel Teixeira. Isso mesmo se sentiu na 37ª Peregrinação anual da família Franciscana ao Santuário de Fátima, que juntou, no fim-de-semana de 03 e 04 de Outubro, cerca de oito mil pessoas.
A família Franciscana, no final da celebração dos oito séculos da aprovação da “forma de vida franciscana” aposta na “renovação dentro da fidelidade”. Uma renovação feita também através de novas vocações religiosas.
Actualmente, encontram-se três portugueses em fase de noviciado. A província portuguesa assume ainda a preparação de mais dois jovens moçambicanos e três jovens provenientes da Indonésia.
Todas as instituições estão em crise, reconhece o Frei Daniel Teixeira, “quer sejam as instituições políticas, sociais ou eclesiais”. Mas, apesar de reconhecer um número menor de vocações sacerdotais quando comparado com tempos anteriores, “continuamos a ter jovens que querem percorrer este caminho connosco”.
Fonte: Agência Ecclesia