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2008 - Ano Europeu do Diálogo Intercultural
26-02-2008
O ano de 2008 foi declarado pela Comissão Europeia Ano Europeu do Diálogo Intercultural. Esta iniciativa tem por objectivo contribuir para a compreensão mútua e melhor convivência dos diferentes povos e indivíduos no seio do velho continente.
Assistimos, neste início de século à passagem de sociedades Pluriculturais (nas quais se isolam, se afrontam e tentam destruir diferentes culturas) a sociedades Interculturais (nas quais os conjuntos culturais são inevitavelmente chamados a interagir, devendo tirar partido das suas diferenças).


O que é a cultura?

Inúmeras definições são possíveis. Em 1952, CLYDE KLUCKHOHN coligiu 164 diferentes definições diferentes de cultura.
Retomando a etimologia, cultura vem de colere (cultivar). Desde o século II a.C., com Catão o Velho, emprega-se para referir o cultivo da terra (agri-cultura). Mas no século seguinte a palavra já é usada para designar o cultivo do espírito. Cultura animi philosophia est, declara Cícero.
Nos nossos tempos, a UNESCO propôs-nos em boa hora uma noção mais ampla e realista, ao definir a cultura como “um conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afectivos, que caracterizam uma sociedade ou grupo social”.
O Concílio Vaticano II que procurou reatar o diálogo construtivo entre fé e cultura, atento à pluralidade de culturas do mundo contemporâneo, usa a palavra cultura pelo menos 66 vezes nos seus documentos. Nestes, o termo cultura designa em geral, todas as coisas por meio das quais o homem aperfeiçoa e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo. Este conceito de cultura abrange todo o agir humano na promoção de um mundo mais humanizado, justo e fraterno.
Tal noção de cultura abrangente e humanista vem muito ao encontro da tradição franciscana que marcou estes oito séculos de história por uma presença evangélica inculturada sempre próxima dos anseios e esperanças da humanidade.
Por outro lado, quanto falamos de diálogo inter-cultural, pressupomos a existência de múltiplas culturas, isto é, visões distintas do mundo, ou muitos mundos que nos aproximam e, ao mesmo tempo, nos separam. É aqui que nós cristãos nos deparamos com um desafio que, longe de ser novo, assume contornos próprios da cultura plural e fragmentada pós-moderna.


Ruptura entre fé e cultura

Paulo VI classificou a “ruptura entre o Evangelho e a cultura” como “o drama da nossa época” (Ev. Nunt. 20). Já lá vão uns bons anos. Contudo continuamos a viver Ester drama. Todos estamos conscientes que urge uma “evangelização da cultura” ou melhor, das culturas. Mas como evangelizar com dialogar, como anunciar sem conhecer o destinatário, como inculturar o Evangelho sem nos inculturarmos primeiro a nós?
Mais do que evangelizar a cultura, urge uma aproximação serena aos mundos plurais que nos rodeia. Urge uma sensibilidade renovada para perscrutar os sinais dos tempos, mas também os sinais dos diferentes espaços em que a fé se pode expressar noutras linguagens. Urge acreditar que o Espírito continua a soprar “quando quer e onde quer”, e não quando nós queremos ou cremos e onde nós estamos, sem nos movermos.
Um dos aspectos em que e ruptura entre o anúncio da Igreja e a as culturas contemporâneas é mais notório é no que concerne à linguagem. Também aqui deveríamos falar no plural, pois há tantas ou mais linguagens quantas as culturas.
Um dos segredos do sucesso do cristianismo ao longo da sua história foi o ter falado a língua do Espírito. Porém, como no-lo mostra o extraordinário acontecimento do Pentecostes, o problema não está tanto nas “línguas”, mas sim no “fogo” ou falta dele. Só criará raízes um anúncio que toque os corações com esse mesmo fogo que ardia nos corações dos discípulos de Emaús. Não se trata, porém de um “fogo posto” ou imposto, mas de uma chama que se acende percorrendo o mesmo caminho, escutando as desilusões e esperanças dos que buscam como nós. É um fogo contagioso, mas que se alastra tanto mais quanto mais profundo, paciente e silenciosos.
Precisamos todos de exercitar a capacidade de escutar, a arte de dialogar e a sabedoria da simplicidade nas palavras e discursos que fazemos. Uma mensagem por mais sublime que seja, se não é percebida e recebida (na mente e no coração) não é mensagem nenhuma, pois só se vê o mensageiro.
A nossa linguagem religiosa habitual peca por hermetismo, clericalismo, nominalismo, moralismo, desincarnacionismo… e podia continuar pelo menos até sete pecados capitais. Também aqui se aplica, embora noutro sentido, a sentença de Goethe: quem conhece apenas a sua língua, não conhece língua nenhuma.


Desafio

“Não há homens cultos. Há homens que se cultivam” (Marechal Foch). Ninguém está preparado para o desafio que temos pela frente. Mas é exactamente esta consciência que nos dispõe para percorrermos o caminho do diálogo solidário e discernido ao encontro do melhor destino. Daqui nasce também a urgência da formação permanente, a ideia talvez mais importante dos nossos tempos, no que toca à educação. Não há homens formados, menos ainda reformados, há homens que se formam permanentemente porque nunca se conformam com o seu presente.


Diálogo inter-culutral

Num mundo e sobretudo numa Europa cada vez mais sem fronteiras, urge educarmo-nos para o respeito e o encontro como o outro diferente de nós. Tal capacidade de acolhimento da diferença será o metro que medirá o estado civilizacional e de verdadeiro progresso da humanidade nos próximos decénios.
Este encontro dialogante entre povos e culturas parece já ter superado as deformações do passado, que levou à asfixia de povos e culturas dominadas por nações ou impérios que nutriram o seu domínio à custa dos oprimidos. Esta história de encontro e confronto de povos e culturas deixou feridas que só o diálogo pode curar: “Demo-nos conta do mal que fizemos aos povos e a nós mesmos. Afinal, somos um povo e uma cultura entre outros. A cura para essas feridas reside no diálogo incansável, na abertura aos outros, na troca que nos enriquece e nos faz humildes” (L. Boff).
Mas permanece hoje uma outra tentação: Alguns pensadores (como Durkheim e Jean Jacques Rousseau) defenderam a ideologia do Universalismo Cultural, ou seja o ideal de um nivelamento cultural que postula o desaparecimento de entidades culturais distintas e perspectiva o advento duma única cultura mundial. Esta visão conduziria à massificação cultural anulando as diferenças e riquezas específicas e próprias de cada povo.
Dialogar respeitando as culturas não significa, portanto, ignorar ou apagar as diferenças e as notas distintivas de cada comunidade ou povo, mas partilhar riquezas complementares e discernir, a partir do encontro, caminhos novos para as gerações vindouras. Por outro lado, defender e respeitar o pluralismo cultural não significa promover o relativismo ou o sincretismo ético ou religioso. Significa, isso sim, assumir e a complexidade e riqueza do mistério do homem, como ponto de partida para qualquer humanismo ou caminho conjunto a percorrer.


Pressupostos para o diálogo

Quando vamos por um caminho e encontramos um ser humano que vem ao nosso encontro e que também percorria o seu caminho, nós conhecemos apenas a nossa parte do caminho, mas não a sua, pois a sua apenas a vivemos no encontro” (M. Buber).

Dialogar é acolher e partilhar a diversidade; é ampliar o espaço da compreensão do mundo; é descobrir que há outros mundos; é dar e receber não o que já temos, mas o que ainda nos falta a nós e aos outros.
Dialogar não é trocar palavras mas partilhar sentidos, experiências e anseios. Dialogar é comunicar. Mas comunicar não é mostrar tudo nem demonstrar algo, mas re-velar-se. O que requer respeito pelo outros e inter-esse.

Enquanto expressão de ser, o diálogo pressupõe:

. Uma infra-estrutura psíquica amadurecida e equilibrada;

. Uma consciência adequada da nossa indigência.

. A consciência de estar vivo, pois sós se vive quando se entra em diálogo, e fechar-se na própria postura é morrer (E. Mounier);

. Uma vida interior, pois o diálogo não é puro acto social, mas um exercício que se produz no seio da interioridade;

. Uma atitude de abertura e acolhimento que cultiva e enobrece sempre a nossa inteligência;

. Aceitação do confronto e de morrer para as próprias seguranças, pois quem recusa o combate acabará por morrer de uma morte indigna;

. Uma experiência tecida com as linhas entrecruzadas da cordialidade e do compromisso;

. Um espaço apropriado em que os interlocutores respeitosamente se colocam reciprocamente no lugar do outro sem ocupar o seu lugar;

. Um espaço de liberdade para se expressar, sem receio de ficar ex-posto;

. Uma disponibilidade para o encontro, mesmo quando percorremos diferentes caminhos ou prosseguimos direcções diferentes no mesmo caminho.

. Uma espiritualidade quotidiana de êxodo, pois dialogar é sair da endogamia e do circuito fechado das opiniões cristalizadas que nos impedem de caminhar e crescer;

. Um olhar transparente, sem preconceitos, duplicidade nem juízos condenatórios;

. Uma atitude de humildade e de hospitalidade: dialogar consiste em dar hospitalidade à palavra inquietante do outro, em dar-lhe espaço na nossa alma. Isto requer uma humildade;

. Respeitando sempre, pois podemos contemplar sempre no outro a “imagem de Deus”, tendo presente que respeitar significa apreciar o outro como ele é (e não o que ele faz, tem ou aparenta), reconhecendo a sua dignidade e valor.

Na perspectiva cristã

O cristão é um cidadão da cidade de Deus, mas não deixa de residir (ainda que peregrino) na cidade dos homens. Como gostava de repetir o grande teólogo Yves Congar, se a Modernidade se nos afigura como “um mundo sem Deus”, isso se deve, sobretudo ao facto de a Igreja, durante séculos, ter anunciado “um Deus sem o mundo”. 
Por isso, ao cristão pede-se-lhe que saiba trazer Deus para o mundo e olhar o outro com os olhos do mesmo Deus. O diálogo impõe-se, então, pela própria vocação e dignidade de que todos os homens comungam, enquanto criaturas e imagem de Deus e enquanto peregrinos da cidade de Deus.
Por outro lado, o diálogo é um serviço ao mundo e, portanto, é também exigência da condição e missão do cristão.
O diálogo, porque se realiza-se entre a busca humana e a revelação cristã implica, pelo menos as seguintes dimensões:

- Dimensão teológica: O cristianismo é uma comunidade de vida e uma partilha de bens. O maior desses bens é a Palavra, o “Verbo que se fez carne” para os que estavam cansados do silêncio de Deus e fez-se pão para todos os homens e mulheres que têm fome. O diálogo cristão têm a sua primeira raiz no diálogo universal que Deus estabeleceu com a humanidade em Jesus Cristo.

- Dimensão antropológica: Deus é a única fonte de todos os bens e “sementes de verdade” que estão presentes e dispersas em todos os homens e culturas. Há, por isso, que saber tirar fruto dessas “sementes”, e não levá-las a definhar;

- Dimensão evangélica: O Evangelho não se impõe a ninguém nem propõe substituir ou aniquilar as culturas. Mas é uma proposta salvífica e uma mensagem libertadora que “encarna” em cada cultura, conferindo-lhe nova alma, purificando-a dos “erros” que impedem a total libertação do homem.

- Dimensão eclesial: A Igreja “católica”, isto é, “universal”, foi a primeira forma de globalização dos valores humanos e cristãos. Ela compreende, por isso, melhor que qualquer outra instituição, esta necessidade de diálogo respeitador de todos os homens e crentes que integram a única família humana e a mesma casa de Deus.
Dimensão agápica: A nossa verdadeira vocação é o amor. Ora não existe amor sem relação como o outro diferente de nós. E não se alimenta o amor e a caridade sem diálogo.

Dimensão profética: No fim, será a comunicação total e a comunhão dos santos. Mas já aqui na terra somos chamados a ser profetas dessa comunicação e comunhão universal na plenitude do Reino.

Na perspectiva franciscana: Motivações para o diálogo

Para um franciscano o diálogo é uma questão de identidade. No diálogo com o mundo e as culturas o franciscano descobre a própria fisionomia e encontra uma multidão de irmãos. Ir ao encontro, “estar com” e dialogar é, para um franciscano, a primeira forma de evangelização. O diálogo com as outras culturas, com as outras religiões ou, em suma, com o “outro” diferente de nós, é um imperativo que brota dos seguintes motivos:

Fidelidade a Deus que nos criou à Sua imagem e nos chamou a ser o Seu povo, uma só família. “Considera, ó homem, a dignidade a que o Senhor te elevou” (Ex 5,1), exorta-nos Francisco o qual acaba por concluir que “quanto vale o homem aos olhos de Deus isso vale a nada mais…” (Ex 19,2). Valemos todos o que valemos aos olhos de Deus e não aos olhos dos homens.

Fidelidade ao Evangelho que exige de nós uma profunda conversão e uma clara percepção e testemunho do primado do Reino de Deus sobre toda e qualquer instituição ou tradição humanas. S. Francisco mandou que os seus frades anunciassem o evangelho entre os não cristãos, não impondo a sua verdade, mas “sujeitando-se a toda a criatura humana por amor de Deus” (Regra, 16). O anúncio e vivência do Evangelho obriga a uma inculturação da fé, donde surgirão valores renovados a partir do fundamento último do amor ao próximo, sumário de todo o cristianismo.

Fidelidade ao homem: Francisco foi o homem da relação que inspirou o humanismo do encontro e da confiança. Uma vez que a confiança é sempre recíproca, ela é condição fundamental para o encontro dialogante. Francisco potenciou este encontro lançando-se na busca constante de novos horizontes cósmicos, humanos e divinos. Dado que estes encontros são radicalmente sinceros e plenos de verdade, têm forçosamente de desabrochar em acolhimento.

Fidelidade ao Amor que acolhe sempre: Francisco acolhe, com alegria e gratidão o amor de Deus expandindo-o pelos irmãos: Acolhe os de outras religiões, os socialmente enfermos, os ladrões, os salteadores, os leprosos, os pobres, os poderosos, os irrelevantes. Acolhe a criação inteira, não apenas com sentimentos de poeta, mas com entranhada amizade fraterna. Esta sensibilidade do acolhimento franciscanos, podem transformar, como diz António Merino "o universo do temor num universo de aproximação exultante".

Fidelidade à Fraternidade: Francisco é o irmão universal, que se considera a si mesmo o irmão menor de todos os homens e criaturas. Esta irmanação universal baseada na verdade mais profunda do homem explica a cortesia de Francisco para com os outros e é condição fundamental para o diálogo promotor do homem e da verdade.

Fidelidade à missão: Francisco ensinou os seus irmãos a “irem pelo mundo”, anunciando o Evangelho “sem litigar nem discutir, sem julgar os outros, mas sendo mansos, pacíficos e modestos, tranquilos e humildes, e falando a todos honestamente como convém” (Regra, 3). O anúncio do Evangelho só será coerente e convincente quando abandonar todo o tipo de “armas” de arremesso ou rejeição contra o outro diferente e se apresentar com os argumentos bem mais persuasivos da paz, da humildade e da honestidade.

Fidelidade à tradição franciscana: A Ordem Franciscana, nos seus diferentes ramos e membros, e na sua multisecular tradição, procurou anunciar o Evangelho em todos os tempos e a todos os povos e culturas. Desta experiência de encontro e permuta com outras culturas resultou uma família franciscana multicultural e enriquecida com as cores dos variados povos e culturas entre os quais os franciscanos e franciscanas continuam presentes.

Fidelidade à metodologia franciscana - derrubar os muros que bloqueiam o diálogo: S. Francisco de Assis sonhou ser cavaleiro de guerra, e talvez participar em alguma cruzada. Fez a experiência da guerra e saboreou as amargas consequências da mesma, na sua juventude. Uma vez descoberta a sua verdadeira vocação, percebeu que o discípulo de Cristo só pode ser um instrumento da Sua Paz. E, de facto, seguiu sempre a estratégia do encontro e do diálogo, mesmo quando a Igreja insistia em recorrer ao método das armas para converter o “infiel” (cruzadas). O itinerário de encontro e diálogo percorrido por S. Francisco pode esquematizar-se em três etapas, marcadas pelo derrubar de três muros: abraçando o irmão leproso derrubou o muro da discriminação que vê no outro uma ameaça; perdoando e reconciliando-se com os “irmãos ladrões” que seus frades queriam expulsar das portas dos conventos, Francisco derruba o muro fictício que separa os “bons” dos “maus”; o terceiro muro, é o religioso que persiste em impor uma visão maniqueia da vida e dos homens, identificando os “bons” com os da nossa religião e os maus com os adeptos doutros credos. Esta visão dualista que continua hoje tão vincada e a ser fonte de inúmeros conflitos, foi superada por Francisco, no seu gesto profético de encontro com o Sultão Al-Malik-al-Kamil (1217), onde o Santo de Assis nos oferece um modelo sempre actual de diálogo com os membros de outras religiões e culturas.


Desafio

Quanto falamos da urgência do diálogo intercultural, devemos assumir que este pressupõe um exercício quotidiano e doméstico. Isto é, devemos começar por casa, pois, também em nossos conventos encontramos irmãos com “mundos” e culturas diferentes dos nossos. Ora se não nos exercitamos na relação com os com-frades, se não promovemos o encontro com quem caminha com-nosco, então todos as outras instâncias de diálogo - ecuménico, inter-religioso, inter-cultural- permanecerão uma utopia ou, como diz o povo, “conversa sem proveito, boas para a boca, mas más para o peito”. Para nós, especialmente, viver é com-viver e conviver pressupõe com-fiança e com-promisso. A nossa comum-união nasce da comunicação no mesmo Verbo que se fez carne. A partir de então, chegará mais alto quem com-descende; está mais próximo quem se com-padece; tem mais razão quem busca a com-córdia, está mais certo quem com-certa, está mais seguro quem com-cede, auxilia mais quem com-cilia; e chegará mais depressa quem com-corre para o bem comum.

Frei Isidro Lamelas, OFM

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