Todos precisamos de tempo livre, tempo para fazermos coisas que habitualmente não fazemos. O tempo livre pode tornar-nos mais livres, fazendo-nos viver com mais qualidade e intensidade todas as dimensões da vida, mesmo o trabalho.
O ser humano define-se não só pelo trabalho, mas também pelo tempo livre. Não vivemos apenas para trabalhar. A vida é muito mais do que o trabalho. Há aspectos da mesma vida que só se entendem quando enquadrados num horizonte mais vasto de sentido e gratuidade.
Entender o ser humano mais do que trabalho contraria a visão utilitarista actual que pensa o tempo como dinheiro («tempo é dinheiro»). O tempo é muito mais do que dinheiro.
Mais do que qualquer ocupação do tempo livre, o tempo de férias serve para nos deliciarmos com a vida, para recuperar a qualidade e intensidade dessa mesma vida.
Santo Agostinho gostava de analisar o tempo a partir da eternidade; e constatava que o tempo humano é sempre finito. Mas, esse tempo finito é aberto ao Infinito, o que permite ao ser humano intensificar a experiência temporal.
Não está longe desta forma de viver o tempo livre, que só é realmente livre quando liberta, Fernando Pessoa (por interposta voz do Mestre Caeiro), nestes versos programáticos (que também o podem ser para o nosso tempo de férias):
«A espantosa realidade das cousas
é a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
e quanto isso me basta.»
Frei Hermínio Araújo, ofm