Bento XVI – Catequese sobre a Beata Ângela de Foligno

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altNo dia 13 de outubro o Santo Padre, Bento XVI, dedicou a sua Catequese à figura da Beata Ângela de Foligno (1248-1309). Esta mística franciscana, professa da Terceira Ordem, explanou em seus escritos uma verdadeira «teologia da Cruz».

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje gostaria de vos falar da Beata Ângela de Foligno, uma grande mística que viveu no século XIII. Geralmente, as pessoas fascinam-se com os momentos culminantes da experiência de união com Deus que ela alcançou, mas talvez percebam pouco os seus primeiros passos, a sua conversão e o longo caminho que a conduziu do ponto de partida, o «grande temor ao inferno», até à sua meta, a união total com a Trindade.

A primeira parte da vida de Ângela não é certamente a de uma fervorosa discípula do Senhor. Nascida em 1248, numa família abastada, ficou órfã de pai e foi educada de forma leviana pela sua mãe. Foi introduzida muito cedo nos ambientes mundanos da cidade de Foligno onde conheceu um homem com quem se casou, aos 20 anos, e de quem teve filhos. A sua vida era despreocupada, ao ponto de se permitir desprezar os chamados «penitentes» - muito difundidos naquela época -, isto é, aqueles que, para seguir Cristo, vendiam seus bens e viviam, em oração e em jejum, ao serviço da Igreja e na caridade.

Alguns acontecimentos, como o violento terramoto de 1279, um furacão, a longa guerra contra Perúsia e as suas duras consequências, influenciaram a  vida de Ângela, a qual, progressivamente, foi tomando consciência dos seus pecados, até dar um passo decisivo: invoca São Francisco, que lhe aparece numa visão, para lhe pedir conselho antes de fazer uma boa confissão geral. Estamos em 1285, e Ângela confessa-se com um frade em São Feliciano. Três anos depois, o caminho da conversão dá outra volta: a dissolução dos vínculos afetivos, pois, em poucos meses, depois da morte de sua mãe, morreram o seu marido e todos os seus filhos. Então, vende os seus bens e, em 1291, entra na Ordem Terceira de São Francisco. Morre em Foligno, em 4 de janeiro de 1309.

O «Libro della beata Angela da Foligno», no qual se recolhe a documentação sobre a nossa beata, narra esta conversão; indica os meios que lhe foram necessários: a penitência, a humildade e as tribulações; e narra os seus passos, a sucessão das experiências de Ângela, começadas em 1285. Recordando-as, após tê-las vivido, ela tentou contá-las através do seu frade confessor, o qual as transcreveu fielmente, procurando depois organizá-las em etapas, a que chamou de «passos ou mutações», mas sem as conseguir ordenar plenamente (cf «Il Libro della beata Angela da Foligno», Cinisello Balsamo 1990, p. 51). Tal deveu-se à experiência de união que, para a beata Ângela, supõe um envolvimento total dos sentidos espirituais e corporais; do que ela «compreende» durante seus êxtases, resta, por assim dizer, somente uma «sombra» na sua mente. «Escutei verdadeiramente estas palavras - confessa ela depois de um rapto místico -, mas o que vivi e compreendi, e o que Ele [isto é, Deus] me mostrou, de forma alguma posso dizer, ainda que revelaria com prazer o que compreendi com as palavras que ouvi, mas houve um abismo absolutamente inefável.»

Ângela de Foligno apresenta a sua «vivência» mística sem a elaborar com a mente, porque são iluminações divinas que se comunicam à sua alma de forma imprevista e inesperada. Ao próprio frade confessor é difícil recolher tais eventos, «também por causa da sua grande e admirável reserva com relação aos seus dons divinos» (Ibid., p. 194). À dificuldade para expressar a sua experiência une-se também a dificuldade dos seus ouvintes em a compreender. Uma situação que indica com clareza que o único e verdadeiro Mestre, Jesus, vive no coração de todo crente e deseja tomar totalmente posse dele. Assim aconteceu com Ângela, que escrevia a um seu filho espiritual: «Meu filho, se visses o meu coração, estarias absolutamente obrigado a fazer tudo o que Deus quer, porque o meu coração é o de Deus e o coração de Deus é o meu». Ressoam aqui as palavras de São Paulo: «Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

Consideremos então, somente, um dos «passos» do rico caminho espiritual da nossa beata. O primeiro, na verdade, é uma premissa: «Foi o conhecimento do pecado - como ela revela -, seguido de um grande temor de se condenar; nesta passagem, chorou amargamente» («Il Libro della beata Angela da Foligno», p. 39). Este «temor» do inferno corresponde ao tipo de fé que Ângela tinha no momento da sua «conversão»: uma fé ainda pobre de caridade, isto é, do amor de Deus. Arrependimento, medo do inferno e penitência abrem para Ângela a perspetiva do doloroso «caminho da cruz» que, do oitavo ao décimo quinto passo, a levará depois ao «caminho do amor». Narra o seu confessor: «A fiel disse-me então: Tive esta revelação divina: Depois das coisas que escreveste, escreve que quem quiser conservar a graça, não deve desviar os olhos da alma da Cruz, tanto na alegria como na tristeza que lhe concedo ou permito» (Ibid., p. 143). Mas nesta fase, Ângela ainda «não sente amor»; ela afirma: «A alma sente vergonha e amargura e ainda não experimenta o amor, mas sim a dor» (Ibid., p. 39) e está insatisfeita.

Ângela sente o dever de ter de dar algo a Deus para reparar os seus pecados, mas lentamente compreende que nada tem para lhe dar; pelo contrário, é «nada» diante d'Ele; compreende que não será a sua vontade que dará amor a Deus, porque esta só lhe pode dar o seu «nada», o «não amor». Como ela mesma dirá: somente «o amor verdadeiro e puro, que vem de Deus, está na alma e faz com que esta reconheça os seus próprios defeitos e a bondade divina (...). Este amor leva a alma a Cristo e ela compreende com segurança que não se pode verificar nem haver qualquer engano. Com este amor não se pode misturar nada do mundo» (Ibid., p. 124-125). Abrir-se sozinha e totalmente ao amor de Deus, que tem a máxima expressão em Cristo: «Ó meu Deus - reza -, torna-me digna de conhecer o altíssimo mistério, que o teu ardentíssimo e inefável amor realizou, junto com o amor da Trindade, ou seja, o altíssimo mistério da tua santíssima Incarnação por nós (...). Ó amor incompreensível! Para além deste amor, que fez com que o meu Deus se fizesse Homem para me tornar Deus, não há maior amor» (Ibid., p. 295). Contudo, o coração de Ângela carrega sempre as feridas do pecado; inclusive depois de uma confissão bem feita, encontrava-se perdoada e, contudo, afligida pelo pecado; livre e condicionada pelo passado; absolvida, mas necessitada de penitência. E também a acompanha o pensamento do inferno, porque quanto mais a alma progride no caminho da perfeição cristã, mais se convencerá não só de ser «indigna», mas de merecer o inferno.

Assim, no seu caminho místico, Ângela compreende de forma profunda a realidade central: o que a salvará da sua «indignidade» e de «merecer o inferno» não será a sua «união com Deus» e o seu possuir a «verdade», mas Jesus crucificado, «a sua crucifixão por mim», o seu amor. No oitavo passo, ela diz: «No entanto, eu ainda não compreendia se era maior a minha libertação dos pecados e do inferno, e a conversão e a penitência, ou a sua crucifixão por mim» (Ibid., p. 41). É o instável equilíbrio entre o amor e a dor, ponderado em todo o seu difícil caminho rumo à perfeição. Precisamente, por isto, prefere contemplar Cristo crucificado, porque nesta visão vê realizado o equilíbrio perfeito: na cruz está o homem-Deus, em  supremo ato de sofrimento que é supremo ato de amor. Na terceira Instrução, a beata insiste nesta contemplação e afirma: «Quanto mais perfeita e puramente vemos, tanto mais perfeita e puramente amamos (...). Por isso, quanto mais vemos o Deus e o Homem Jesus Cristo, tanto mais somos transformados n'Ele através do amor. (...) O que eu disse do amor (...), digo também da dor: quanto mais a alma contempla a inefável dor do Deus e Homem Jesus Cristo, tanto mais sofre e é transformada em dor» (Ibid., p. 190-191). Interiorizar-se, transformar-se no amor e nos sofrimentos do Cristo crucificado, identificar-se com Ele. A conversão de Ângela, iniciada com essa confissão de 1285, só chegará à maturidade quando o perdão de Deus aparecer à sua alma como dom gratuito do amor do Pai, fonte de amor: «Não há ninguém que possa dar desculpas - afirma -, porque qualquer um pode amar a Deus e Ele não pede outra coisa à alma a não ser que o ame, porque Ele a ama e é o seu amor» (Ibid., p. 76).

 

No itinerário espiritual de Ângela, o passo da conversão à experiência mística, do que se pode expressar do inexprimível, acontece por meio do Crucificado. É o «Deus-Homem da paixão», que se converte em seu «Mestre de perfeição». Toda a sua experiência mística é, portanto, um tender a uma perfeita «semelhança» com Ele, mediante purificações e transformações cada vez mais profundas e radicais. Nesta estupenda empresa, Ângela envolve-se totalmente, alma e corpo, sem poupar penitências e tribulações, do começo até o fim, desejando morrer com todas as dores sofridas pelo Deus-Homem crucificado, para ser transformada totalmente n'Ele: «Ó filhos de Deus - recomendava ela -, transformai-vos totalmente no Deus-Homem da paixão, que tanto vos amou, até se dignar morrer por vós em morte ignominiosíssima e total e inefavelmente dolorosa, de uma forma penosíssima e amarguíssima. Isso somente por amor a ti, ó homem!» (Ibid., p. 247). Esta identificação também significa viver o que Jesus viveu: pobreza, desprezo, dor, porque - como ela afirma - «através da pobreza temporal, a alma encontrará riquezas eternas; através do desprezo e da vergonha, obterá honra e grandíssima glória; através de pouca penitência, feita com pena e dor, possuirá, com infinita doçura e consolação, o Bem Supremo, Deus eterno» (Ibid., p. 293).

Da conversão à união mística com Cristo Crucificado, ao inexprimível. Um caminho altíssimo, cujo segredo é a oração constante: «Quanto mais rezares - afirma ela -, mais serás iluminado; quanto mais fores iluminado, mais profunda e intensamente verás o Sumo Bem, o Ser sumamente bom; quanto mais profunda e intensamente o vires, mais o amarás; quanto mais o amares, mais Ele te deleitará; e quanto mais Ele te deleitar, mais o compreenderás e serás capaz de compreendê-lo. Sucessivamente, chegarás à plenitude da luz, porque compreenderás que não podes compreender» (Ibid., p. 184).

Queridos irmãos e irmãs, a vida da Beata Ângela começa com uma existência mundana, bastante afastada de Deus. Mas depois ela encontrou-se com a figura de São Francisco e, finalmente, o encontro com Cristo Crucificado desperta a alma para a presença de Deus, pelo facto de que só com Deus a vida chega a ser verdadeira vida, porque chega a ser, na dor pelo pecado, amor e alegria.

É assim que a Beata Ângela nos fala hoje. Hoje, todos corremos o perigo de viver como se Deus não existisse: Ele parece muito longe da vida atual. Mas Deus tem mil maneiras - para cada um a sua – de se tornar presente na alma, de mostrar que existe, que me conhece e ama. E a Beata Ângela quer deixar-nos atentos a estes sinais com os quais o Senhor nos toca a alma, atentos à presença de Deus, para aprendermos, assim, o caminho com Deus e rumo a Deus, na comunhão com Cristo Crucificado.

Oremos ao Senhor para que nos torne atentos aos sinais da sua presença, que nos ensine a, realmente, viver. Obrigado.

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