Em memória da Irmã Maria José, osc
No dia 05 de Janeiro deste ano de 2012, pelas 05h30 faleceu, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, a Irmã Maria José Gonçalves Mão Cheia, OSC. Paz à sua Santa Alma! Nascida a 22 de Fevereiro de 1924 no concelho de Arco da Calheta, Ilha da Madeira, teve uma vida longa: 88 anos. Vida, toda ela, gasta em permanente serviço ao Reino de Deus e Seu Louvor e Glória.
Recordando o seu percurso de vida
Ainda menina e jovem, tomou a corajosa decisão de se consagrar ao Senhor. Essa entrega começou na Congregação da Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, na Ilha da Madeira. Como seu membro, deu-se à missão, «Ad Gentes» em Moçambique durante cerca de 20 anos.
Alma inquieta, sempre ansiou por uma maior proximidade e intimidade com Deus. Esse anseio levou-a ao Mosteiro de Irmãs Clarissas de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, onde foi recebida a 13 de Junho de 1970. Neste ambiente de clausura e intimidade iniciou a última e decisiva etapa da sua vida consagrada, agora embalada ao ritmo do carisma contemplativo, ao jeito de Clara e Francisco de Assis. Neste Mosteiro viveu oito anos consecutivos, dedicada ao serviço das Irmãs, incluindo à difícil tarefa da formação, como Mestra de Noviças.
Transferida para o Mosteiro do Santíssimo Sacramento de Sintra, continuou a servir as Irmãs, também como Abadessa e depois Presidente da Federação do Imaculado Coração de Maria das Clarissas de Portugal, tarefa que desempenhou com amor, inteligência e total dedicação.
Os últimos 17 anos da sua já longa vida decorreram no Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, à Estrela, em Lisboa. De sorriso contagiante, tanto dentro da Comunidade, como no contacto com as pessoas da sociedade que a procuravam para ajuda aos seus problemas espirituais, a todos cativava para a subida ao Alto. A forma alegre de viver na terra era já um preâmbulo da alegria eterna que Seu Amado Deus e Esposo lhe reservava. É recordada com saudade e muito carinho por todas e cada uma das suas irmãs e por quantos a procuraram e dela receberam conforto e coragem para as suas vidas.
O último mês de vida terrena foi vivido em entrega mais exigente, crucificada na sua cama do Hospital Egas Moniz. Enfermeira de profissão, conjugando o serviço da saúde com a pregação do Reino, ficou agora necessitada das que são hoje médicos e enfermeiros e do carinho permanente das suas irmãs do Mosteiro da Estrela e de outros amigos que nunca a deixavam sozinha. Outrora comunicava alívio e paz aos seus doentes. Agora recebe-o e partilha-o com quem a visita e com as colegas internadas na mesma enfermaria. Foi a mais bela pregação da sua vida: o sofrer e ensinar a sofrer no aguardar da libertação total desse corpo mortal. Pregava pela palavra humilde e pelo sorriso sincero e profundo. Os seus olhos, límpidos e transparentes, substituíam, com vantagem, as mais sábias pregações.
Diz o Livro da Sabedoria que A morte do homem revela as suas obras. Antes do fim, não chames a ninguém feliz, pois pela morte se conhece o homem. A verdade é que a forma como terminou a vida, foi manifestação de sabedoria amadurecida ao longo dos anos de permanente contemplação e contacto íntimo com o Seu Esposo Amado e os seus Irmãos.
Grande a amizade que sempre dedicou à Família da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos). Um carinho especial aos seus noviços, e um mais especial ainda ao seu afilhado de adoção, Frei Manuel Nicolás Hipólito de Almeida. Para ele, toda a força da sua fala persuasiva e oração dedicada, acompanhando o ser percurso vocacional, particularmente na última decisão pela vocação sacerdotal.
À Missa de Corpo Presente, celebrada na Basílica da Estrela, presidiu este seu afilhado preferido, Frei Nicolás Almeida, que afirmou na homilia:
«Na paráfrase das Bem-aventuranças, escrita por Santa Clara a Santa Inês de Praga, encontramos estas afirmações: Se com Ele sofreres, com Ele reinarás; se com Ele chorares, com Ele exultarás; se com Ele morreres na cruz da tribulação, com Ele habitarás na glória dos santos, na mansão celeste, e teu nome será gravado no Livro da Vida e para sempre glorificado entre os homens.
São muitas as semelhanças destas palavras com a vida da nossa querida Irmã Maria José Mão Cheia!
Todos nós que a conhecemos, pudemos experimentar um pouco daquela luz divina que a habitava mesmo nos últimos momentos da sua vida. Já não era ela que vivia, mas Jesus que vivia nela, o astro amado que ela tanto contemplava, mesmo nas noites da vida e do sofrimento.
As suas palavras, cheias de naturalidade, iluminavam os nossos corações quando nos dizia: «tenho o Céu em mim!» Um pouco da glória de Deus se manifestava na sua paz, no sorriso, na sua oração. Queria dizer-nos que todas as nossas preocupações e sofrimentos ganham novo sentido junto de Deus. Na luz que ela irradiava, também nós éramos conduzidos à Luz verdadeira. No Céu viveu-se grande alegria quando lá se ouviram as palavras: Vem, bendita de meu Pai, minha esposa, minha predilecta. Recebe em herança o Reino preparado para ti desde a criação do mundo. Vem, bendita de meu Pai. Hoje sabemos que o Céu existe. E o nome da Irmã Maria Mão Cheia está escrito no Livro da vida e será glorificado entre nós.»
A terminar: Desde que soubemos da sua doença, eu, o Frei Nicolás e os irmãos Noviços OFM fomos várias vezes visitá-la, tanto ainda no Mosteiro da Estrela, como, depois, no hospital.
Às 19h30 do dia da sua morte foi celebrada Missa de Corpo presente na Capela mortuária da Basílica da Estrela, presidida por mim e concelebrada pelo Reitor da Basílica, Cónego Meirim, Frei Nicolás Almeida, e outros sacerdotes diocesanos e franciscanos. À Missa de Corpo Presente, antes do funeral, presidiu Frei Nicolás Almeida, e acompanhámos ao cemitério do Alto de São João os seus restos mortais.
Para louvor de Cristo. Ámen!
Saudações de Paz e Bem a todas as Irmãs.
Frei Armindo de Jesus Ferreira Carvalho, ofm
Assistente Religioso da Federação das Clarissas de Portugal
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